– Se a tecnologia faz tudo, o que um ser humano faz?
A tecnologia simplifica a vida. Isso é inegável. Estou dirigindo meu carro em uma terra desconhecida, quando de repente percebo que me perdi: já não preciso mais olhar para as estrelas para encontrar meu caminho.
Todos sabemos: basta ligar o GPS e pronto. A tecnologia cuida de tudo. Para onde ir, como chegar lá, quanto tempo vai demorar… Tudo é calculado para nós. Qualquer chance de se perder é praticamente extirpada da existência humana, como uma raiz. Como alguém poderia ter uma visão negativa de uma revolução tão crucial para a vida de toda a humanidade? Impossível: a aura da tecnologia brilha muito intensamente para ser questionada. No entanto, pode ocorrer a alguns como usar o GPS do seu carro como navegador, abrindo mão de usar o navegador da máquina humana, nosso cérebro, poderia, na verdade, ter certas consequências menores. Também em termos de viagem.
– Há um GPS embutido na máquina humana: o hipocampo.
Num estudo científico publicado em 2017 na Nature Communications, alguns pesquisadores fizeram observações sobre o que acontece (mas também o que não acontece) com os neurônios do cérebro, quando não são usados, na sua capacidade ancestral de serem “navegadores”, mapeando o território. Como? Graças a uma simulação virtual, os sujeitos participantes foram convidados a explorar a área de Soho, em Londres. Um grupo foi equipado com GPS, enquanto o outro só podia contar com as suas próprias habilidades.
Os cientistas puderam assim observar não apenas o quão mais difícil, obviamente, um cérebro trabalhará na ausência de suporte tecnológico, “ligando-se”, mas especificamente qual parte do cérebro é ativada para a orientação, ou seja: onde o GPS humano está localizado. No hipocampo. Nas palavras de Amir-Homayoun Javadi, um dos autores do estudo:
“O hipocampo cria um mapa interno do ambiente e este mapa só se torna ativo quando se está envolvido na navegação e não se está usando o GPS”
– Viajar significa se perder. Tenha uma boa viagem.
Graças a esta enésima demonstração microcelular, o “regime” tecnológico ao qual toda sociedade está se rendendo é forçado a mediar. O dado é sempre o mesmo: a tecnologia, quando usada em excesso, pode e terá efeitos colaterais graves. O hábito do conforto mantém o potencial da nossa mente subutilizado. Mantém-na parada, linda como uma pintura, mas desligada. Um carro novo e bonito, claro, mas preso dentro de uma garagem. Em termos de viagem, isso significa apenas metade da experiência. Olhos semicerrados, e o coração nem lá. Como lidar com isso?
Com certeza, o futuro não é sobre deixar o GPS de lado completamente. Mas tê-lo em equilíbrio com o hipocampo, usando-o apenas quando realmente necessário. Para nunca esquecer que existe um mapa, muito mais distante que os satélites, ao qual todos podemos nos conectar. Um mapa, lá no fundo, na imensidão, e esse mapa somos nós. Nessa trilha profunda e misteriosa, onde a humanidade tem viajado para sempre. E, para que a viagem funcione, não podemos abrir mão da possibilidade de nos perdermos nessa trilha infinita.
Foto de Jamie Street em Unsplash