– O único presente que quero do Papai Noel é felicidade.
O Relatório Mundial da Felicidade de 2018, publicado pela ONU, indica a Finlândia como o país mais feliz do mundo, tanto para os nativos da Finlândia quanto para aqueles que se mudaram para lá do exterior. Entre as muitas razões que motivaram a escolha dos pesquisadores, felizmente, não há menção à região finlandesa da Lapônia como o local oficial de residência do Papai Noel, símbolo do capitalismo. Em vez disso, fatos de muito maior interesse humano são apresentados: águas limpas, o baixo número de carros, o alto número de bicicletas, o status social avançado do país em termos de direitos e igualdade de gênero, bem como as vastas e intocadas florestas, garantindo que o oxigênio esteja disponível para aqueles que respiram. Mas outro aspecto deste país pode ser útil para explicar a felicidade sentida por seus habitantes: frio.
– «Mas o que te faz feliz?»
«Coisas simples: ler, caminhar na floresta e nadar ao ar livre no inverno»
Essas palavras, ditas por Anne, uma senhora finlandesa de cerca de 50 anos, em resposta à pergunta de um jornalista, escondem a chave para entender como a felicidade funciona.
Primeiramente, sua resposta é composta essencialmente de verbos: “ler”, “caminhar”, “nadar”. A felicidade, portanto, não cai do céu, mas só pode ser alcançada, cultivada, perseguida através da ação. É como se houvesse um caminho, uma prática: felicidade. Especificamente, uma prática de atividades cotidianas muito simples. Assim, em pé de igualdade com uma boa leitura ou uma caminhada tranquila na floresta, a simplicidade de “nadar ao ar livre, no inverno”, parece estar enraizada na cultura deste povo, tão acostumado a águas geladas. Parece lógico, então, dar um mergulho. Especialmente porque a Finlândia abriga mais de 200.000 lagos, espalhados por todo o seu território intocado.
– Para o sistema imunológico, a felicidade é um buraco no gelo.
Avantouinti, em finlandês, significa literalmente “nadar através de um buraco no gelo”, e é um dos esportes mais praticados na Finlândia. Já na Idade Média, documentos antigos, compilados por viajantes nessas regiões árticas, mencionam a prática como uma espécie de tradição excêntrica, uma prova de quão primitivo e selvagem aquele povo descuidado e estranhamente feliz tinha que ser. É, no entanto, indubitável como Avantouinti é uma característica distintiva da Finlândia antiga e moderna. Particularmente entre os atletas atuais: vale a pena mencionar o caso de Johanna Nordblad, natural de Pori. Ela abordou esta atividade procurando curar certas dores reumáticas, e agora se gaba de que a melhor coisa sobre nadar no gelo é a própria sensação de euforia que permanece em seu corpo após reemergir.
“A primeira sensação, ao mergulhar, pode parecer terrível, mas você rapidamente se acostuma: o frio se transforma em algo que, simplesmente, faz você se sentir bem. Uma vez de volta, o corpo é infundido com um calor maravilhoso, e você se sente mais vivo do que nunca.”
Ao falar de Avantouinti, é impossível ignorar o trabalho de pesquisa crucial feito pela bioquímica Pirkko Huttunen em 2000. Hyinen Hurmio (Êxtase Gelado) é o nome deste trabalho, destacando mais uma vez o poder benéfico do frio para o organismo humano. Além de dados antropológicos que servem para confirmar a estreita relação cultural entre o gelo e o povo finlandês, o texto também demonstra como a natação de inverno, praticada com frequência, pode fortalecer a resistência ao estresse externo, melhorar a circulação sanguínea e reforçar o sistema imunológico. E não termina aí. As baixas temperaturas permitem que o corpo produza níveis mais altos de hormônios como endorfinas e serotonina. Isso mesmo, esses dois: os hormônios da felicidade.
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