… e o vencedor é: a natureza

Um dos quatro laureados do prestigiado Right Livelihood Award 2019 – o outro importante prêmio sueco, também conhecido como o “Nobel alternativo” – é um nome chave na luta pelo meio ambiente: Davi Kopenawa, juntamente com a associação Hutukara Yanomami do Brasil.

Estas são as palavras usadas pelo júri para motivar a sua decisão:

Pela sua bravura e determinação em proteger tanto a floresta amazônica quanto a sua biodiversidade, a terra, bem como a cultura das populações indígenas

Davi nasceu no final da década de 1950 perto das nascentes do Rio Tootobi, no estado do Amazonas, Brasil.

O que torna a sua figura imponente realmente interessante para nós, além da sua defesa extenuante da Amazônia contra o holocausto verde causado pelo capitalismo desenfreado, é o fato de ele ser um xamã. Portanto, Davi poderia ser visto, de certa forma, como a consciência da natureza lutando para defender a própria natureza, ou, num sentido mais amplo, a vida como um todo.

 

Capitalismo como vírus

Talvez não seja amplamente conhecido que, após a chegada dos europeus, os genocídios mais trágicos que dizimaram os povos das Américas não foram causados por armas, mas por surtos. Os conquistadores brancos, e mais tarde colonos e garimpeiros, penetraram violentamente territórios, intocados por milênios, espalhando doenças até então desconhecidas para os nativos e, o mais crucial, para os seus sistemas imunológicos. Uma epidemia foi o que matou os pais de Davi também, assim como toda a sua comunidade. Enquanto ainda criança, o xamã testemunhou o fim do seu lar, o seu reino atávico de árvores, rituais, oxigênio, humanos e magia.

No entanto, Davi não perdeu o ânimo, ele realmente resistiu. Até se tornar a voz mais alta a falar em nome da sua floresta imensa e constantemente ameaçada. Na década de 1980, por exemplo, ele finalmente conseguiu estabelecer fronteiras invioláveis para populações indígenas como os Yanomami; enquanto nos anos 90 ele conseguiu impedir novas leis que teriam transformado toda a Amazônia em um corpo de minério sangrento.

“As minas não trarão nada de bom. Elas trarão muitos problemas, muitas doenças e muito mal, pessoas que matam índios”

 

Quando você mata a floresta, você mata o céu e a terra

Não é coincidência que, desde o início dos anos 70, Davi tenha sido introduzido ao xamanismo. O que é xamanismo? Em suma: um despertar.
Os xamãs alcançam um estado de consciência que é erroneamente visto como “sobrenatural”, se não mesmo “oculto”. A realidade, no entanto, é bem diferente. Sobrenatural, se é que existe, é o estado de encantamento mental tão típico da humanidade moderna, o exílio da natureza, o sonho febril de se transformar em imagem. Os xamãs, por outro lado, incorporam o exato oposto: o estado natural, ou seja, a energia cósmica. O poder dos xamãs não é outro senão o poder do céu e da terra. Nada mais.
Nesse sentido, a luta ambiental de Davi pela preservação da Amazônia assume um novo e muito mais amplo significado. Para cada comunidade nativa que ele salva, para cada árvore e pedaço de terra, ele está salvando a energia de toda a humanidade, o sopro da origem, ainda trancado nas profundezas da floresta tropical, como em cada coração.


Foto de Nate Johnston em Unsplash