Em muitos países do mundo, sempre que ouvimos alguém dizer “foi como um banho de água fria”, entendemos duas coisas. A primeira é: foi um choque. O segundo significado, mais profundo, pode ser resumido assim: algo poderoso acabou de acontecer comigo e revelou algo ao meu conhecimento. Não importa o que foi, é o conhecimento que importa.
A imagem da água fria tem raízes entre os humanos como sinônimo de uma conexão com uma realidade mais objetiva, até mesmo dolorosa. O frio está ligado à ideia de acordar e de reminiscência.
Poderíamos até considerar o simples gesto matinal de lavar o rosto com água – de preferência fria – como um despertar mais profundo, que acontece, simbolicamente, bem quando precisamos limpar o sono do nosso rosto.
Mas que sono? E que despertar?
A prática cada vez mais popular de “banho selvagem” deve sua fortuna moderna à atmosfera meditativa que a envolve. Essa atmosfera peculiar não é gerada apenas pela beleza das águas naturais onde os banhos selvagens acontecem, mas também pela nossa relação com o frio e a água.
Como um antigo ritual.
E, de fato, historicamente, os humanos que se banham em águas naturais são associados a práticas que beiram o mítico. Apresentada em muitos contos medievais, bem como na arte de mestres flamengos como Bruegel e Lucas Cranach, “A fonte da juventude” se destaca como um símbolo de grande interesse. Segundo a lenda, você entra como um certo indivíduo, mas sai transformado.
A natureza metafórica dessa mudança transparece no banho selvagem de hoje. As pessoas saem de lagoas ou lagos bem frias, sem dúvida, mas também conectadas, felizes. Elas tiveram uma experiência. Você tem a mudança ali mesmo. E não por intuição intelectual, mas através da memória de seus corpos: a experiência veio através de suas células. Como se as células precisassem de frio e água para se lembrarem de si mesmas, para se abrirem e viverem.
Podemos encontrar essa ideia em outro exemplo da arte clássica europeia.
Dentro do sublime soneto do poeta do século XIV Francesco Petrarca: “Água fresca, doce e clara”, o narrador vê, pela primeira vez – e possivelmente no próprio ato de se banhar selvaticamente, à frente de seu tempo – sua amada Laura, ali mesmo na água fria da manhã. E eis que o amor é revelado ao poeta como um despertar, a poesia jorrando por si só sob o signo simbólico da água, representando a conexão cósmica. Graças a essa conexão, o poeta não é o mesmo de antes: ele se abre.
Portanto, voltando a uma linguagem comum e ditados sobre acordar, não é apenas mantendo nossos “olhos abertos” que podemos estar conscientes do momento presente, mas também mantendo nossas células abertas, porque quando elas estão abertas e vivas, elas podem se transformar em pequenos diafragmas onde o espaço e o tempo podem realmente se mover e fluir, e revelar o infinito. Aqui está, o banho frio. Aqui está o frio como poder revelador: um talismã bruto, misticamente guardado por humanos, que sempre podem recordá-lo e reacordá-lo com um banho frio, nadando na aurora silenciosa.
Foto de Genessa Panainte em Unsplash